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Sérgio Cabelera

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A história do Forró


Para começo de conversa, não passa de lenda, sem nenhuma sustança, a idéia de que o termo forró vem da expressão “for all”. Segundo esta versão, os ingleses que vieram ao Nordeste construir ferrovias, quando faziam bailes, colocavam na porta de entrada uma tabuleta na qual escreviam “for all”, ou seja “para todos”. Forró seria, pois, corruptela da expressão britânica. Muitos estudiosos, entre os quais o potiguar Luis da Câmara Cascudo, afirmavam que isto não tem o sentido (não exatamente com estas palavras). Primeiro porque os esnobes ingleses nunca foram de se misturar com a cabroeira que trabalhava para eles. Depois, esta cabroeira não sabia ler nem em português, quanto mais em inglês!

Forró vem, não se tem dúvidas, de forrobodó, palavra originária, segundo José Ramos Tinhorão, de Portugal. Significava, tanto no Sudeste, quanto no Nordeste do Brasil, os sambas promovidos pelo populacho. Em 1911, Chiquinha Gonzaga, musicou uma opereta intitulada Forrobodó, de Luiz Peixoto e Carlos Bittencourt. A dupla Xerém e Tapuia, em 1937, gravou a primeira música com o termo no título: Forró na roça, de Xerém e Manoel Queiroz, mas era um choro, não o forró formatado alguns anos mais tarde por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Quando Luiz Gonzaga deixou, em 1930, a casa dos pais, no Araripe, povoado de Exu (PE), forró já pertencia ao seu vocabulário, designando os bailes de finais de semana, movidos a oito baixos, zabumba, melê, às vezes triângulo, pífano, cuja trilha eram xotes, arrasta-pés, quadrilhas, rancheiras, marchinha-de-roda.

 
Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, numa tarde de outono, de 1946, no Centro do Rio de Janeiro (na avenida Calógeras, onde o cearense mantinha um escritório de advocacia) arquitetaram o baião, em 1946. A partir da gravação desta composição seminal pelos 4 Ases e 1 Curinga, baião se tornaria por dez anos mania nacional. Mas ainda não era forró. Assim como o frevo até final dos anos 20 significava a folia, não a música que a animava, o forró continuou, até meados dos anos 50, sendo também chamado de samba, o frege, não os estilos musicais que Gonzaga ia incorporando ao seu repertório: xenhenhem, xaxado, rojão, coco, embolada, samba de latada, torrado, xamego, xerém, balaio, balanceio (criação do cearense Lauro Maia, cunhado de Humberto Teixeira). Não apenas incorporando, mas disseminando a música pelo Nordeste, onde virou ídolo, e influenciou dezenas de músicos a seguirem seus passos.

Um destes seguidores de Gonzagão chamava-se Zito Borborema, um paraibano que, em 1955, começou a fazer apresentações como Zito Borborema e seus Cabras da Peste. Em 1958, Zito Borborema seria mais um dos protegidos de Luiz Gonzaga, que o incentivou a formar com Dominguinhos e Miudinho o Trio Nordestino, que teve pouco tempo de vida com estes integrantes (no mesmo ano, os baianos Coroné, Cobrinha e Lindú pediriam autorização à dona Helena Gonzaga, para usar o nome do trio). Antes, em 1956, Zito Borborema entraria para a história da música nordestina ao gravar o primeiro disco (um 78rpm) que trazia no selo o nome forró como gênero na música Forró no Alecrim. Por esta época forró já deixara de significar a festa para ser o coletivo que abrigava os vários estilos musicais espalhados pelo Nordeste, que tanto podia ser instrumental, quanto cantado, tendo como característica principal o tripé: sanfona, zabumba e triângulo, consagrado por Luiz Gonzaga.



Esta era a instrumentação básica, mas raramente o forró gravado se limitava a ela. O pífano, a tuba, violão, com ênfase na baixaria, enriqueciam os discos do gênero. Em 1955, Jackson do Pandeiro incorporaria mais um estilo ao forró, o rojão, numa composição do pernambucano Edgar Ferreira, Forró em limoeiro. O paraibano, mais adiante, já no Rio de Janeiro, definiria seu estilo próprio, com um fraseado vocal, e um senso rítmico que até a atualidade influencia cantores e cantoras. Valia-se igualmente do uso de todo e qualquer instrumento que desse um colorido à sua música: de metais a violino. Também da Paraíba, viria Marinês (uma pernambucana de São Vicente Férrer, cuja família mudou-se, quando ela ainda era criança, para Campina Grande). Mais uma protegida de Luiz Gonzaga, Marinês formaria com este, mais Jackson do Pandeiro a santíssima trindade do forró, O Rei do Baião, o Rei do Ritmo, e a Rainha do Xaxado.

Nos anos 60, forró era tudo que fosse chamado de forró. Abdias, um paraibano, que foi um dos maiores tocadores da história dos oito baixos, marido de Marinês, incluía em seus discos, além dos estilos embutidos dentro do coletivo forró, também frevos e choros. Em meados dos anos 60, Abdias especializou-se no samba de latada, de letras passionais (que hoje seria chamada de brega), acompanhado de um regional (pandeiro, violão de sete, violão, cavaquinho) mais os instrumentos tradicionais do forró. Nos discos gravados no Recife, nos anos 60, na gravadora Rozenblit, era muito comum se ouvir tuba, clarinete, e pífano, ao lado de sanfona, triângulo e zabumba, acompanhando Jacinto Silva, Genival Lacerda, ou o Coroné Ludugero, nome artístico do pernambucano Luis Jacinto, humorista e forrozeiro, verdadeira lenda nordestina, falecido precocemente num desastre aéreo em 1970, no Pará. Luiz Gonzaga, mais uma vez inovaria o forró, no início dos anos 70, ao incorporar ao seu instrumental a detestada guitarra dos conjuntos de iê-ê-iê, fustigados por ele em Xote dos cabeludos (dele e José Clementino) em 1967, no auge da Jovem Guarda.

O que é forró? O alagoano Jacinto Silva responde a pergunta: “Forró é poeira, é simplicidade. Forró é uma seqüência de ritmos nordestinos: xaxado, coco de roda, marchinha de roda, baião, xote… Esses ritmos todos é que significam o forró″.

José Teles
Especial para o JC OnLine

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